2025-06-21 • eiki
Gilgamesh, rei dos reis, torna-se temeroso após a morte de seu melhor amigo.
Gilgamesh tocou o coração de Enkidu, mas ele já não batia; seus olhos também não tornaram a se abrir. Gilgamesh então cobriu o amigo com um véu, como o noivo cobre a noiva. E pôs-se a urrar, a desabafar sua fúria como um leão, como uma leoa cujos filhotes lhe foram roubados.
Em busca da imortalidade, Gilgamesh viaja ao encontro de Üta-napisti, o único mortal a alcançar o feito. Após uma árdua viagem através das montanhas, depara-se com Siduri:
Lá estava o jardim dos deuses; por todos os lados cresciam arbustos carregados de pedras preciosas […] Ao lado do mar ela vive, a mulher do vinhedo, a fabricante de vinho. Siduri fica sentada no jardim à beira do mar, com a tigela e os tonéis de ouro que os deuses lhe deram. Ela está coberta por um véu e, de onde se encontra, vê Gilgamesh se aproximar, vestindo peles, com a carne dos deuses no corpo, mas com o desespero no coração.
Seu rosto era como o de alguém que chegou de uma longa jornada. Ela olhou e, observando com atenção o que se passava a distância, disse para si mesma: “Trata- se sem dúvida de um criminoso; aonde estará indo?”
“Gilgamesh, onde vais com tanta pressa? Jamais encontrarás a vida que procuras. Quando os deuses criaram o homem, eles lhe destinaram a morte, mas a vida eles mantiveram para si. Quanto a ti, Gilgamesh, enche tua barriga de iguarias; dia e noite, noite e dia, dança e sê feliz, aproveita e deleita-te. Veste sempre roupas novas, banha-te em água, trata com carinho a criança que te tomar as mãos e faze tua mulher feliz com teu abraço; pois isto também é o destino do homem.”
Mas as palavras da moça nada significaram para Gilgamesh. Logo depois ele encontra-se com Üta-napisti, o qual narra a história do dilúvio nas margens do rio Eufrates, planejado pelos deuses para exterminar a raça humana. Tendo sobrevivido graças ao enorme barco que construiu, Üta-napisti recebeu a imortalidade na Assembléia dos deuses por mero capricho do destino. Gilgamesh não obteria a resposta para suas súplicas ali.
No dia da partida, pouco antes de ir embora, Gilgamesh visita Siduri uma última vez para beber do seu vinho e olhar o mar em dia de calmaria. Embora tenha conseguido um último presente, a localização de uma planta que rejuvenesce, continuava visivelmente abatido e insatisfeito.
Siduri compadece-se do sofrimento do rei. Ela conta a seguinte história, que uma vez presenciou em um sonho vívido durante a temporada da enchente.
– Talvez essa história lhe traga alívio algum dia – disse Siduri. – Creio que aconteceu fora da flecha do tempo, em uma época que não está nem antes, nem após o momento presente.
Aracy era uma órfã. Os pais morreram quando era criança, e pensou em dar um fim a tudo, tamanha era a dor que sentia. Um andarilho das montanhas passou pelo seu vilarejo, e vendo o luto no rosto abatido da garota, na época com 11 anos, disse-lhe para meditar e rezar uma vez ao dia.
– Todo dia – disse o andarilho, – você haverá de meditar e rezar uma vez mais que no dia anterior. Isso trará paz aos espíritos.
– De nada adiantará para apaziguar os vivos.
– Você não sabe. Faça isso por mim; na próxima lua cheia irei retornar da minha peregrinação e verei como você está.
Aracy concordou com o combinado. Embora seguisse com zelo o ritual do andarilho, a dor jamais cessara. Ela cresceu e continuou realizando o combinado, esperando a volta do homem, que de lua cheia em lua cheia aparecia para ver como ela estava. Ele levava frutas de cornalina e folhas lápis-lazúli, as quais então usavam para comer e pintar. Aracy tinha dificuldades para sorrir, ou mesmo de falar, no entanto, a companhia do andarilho era agradável.
– Posso ver que está ficando melhor – disse o andarilho. – Logo mais haverá de casar e ter seus próprios filhos.
– Não. Pois se eu mesma morrer, meus filhos haveriam de aguentar a mesma aflição pela qual eu passei. E pode ser que não haja um andarilho com frutos de cornalina e coração gentil para abrigá-los de pensamentos sombrios.
– Você não sabe disso.
Ele sempre tornava a repetir essas palavras; a própria Aracy passou a repetí-las sozinha quando pensava demais. E a garota aceitava, porque de fato, ela não sabia de verdade sobre o futuro.
Porém, no ano seguinte, ele não compareceu. Na esperança de que pudesse dizer ao andarilho o quanto o ritual fora inútil, Aracy continuou a meditar e rezar, ano após ano. Depois de muito tempo, passou a incluí-lo em suas preces, sabendo que não voltaria mais.
Tão boa tornou-se nisso, que em um mesmo dia chegava a ultrapassar o combinado, realizando até cem mil rezas e meditações.
Ela foi eventualmente notada pela Pequena Divindade, recebendo a bênção em corpo e espírito do sobrenatural. A Pequena Divindade perguntava a opinião de Aracy para resolver assuntos divinos, como a quantidade de chuva, a negritude das nuvens e o som feito pelo vento estacionário.
– Não posso concordar com isso, Pequena Divindade – falou Aracy solenemente.
– Mas assim é – retrucou Pequena Divindade, uma voz absoluta, união da voz de todos os seres vivos.
– O garoto virá ao mundo cego, e não conhecerá a cor ou a forma até o fim de sua vida.
– Deseja mudar o destino dele?
– Sim.
– Então gire a roda da fortuna.
Uma enorme roda apareceu, de inúmeras escolhas, mas mesmo assim finito em tamanho.
Quando Aracy girou a roda, visualizou vários meios de experimentar a existência, um atrás do outro, por vias humanas ou não. Após muito tempo, a roda parou.
– Ele nascerá um mosquito e será morto por uma raquete elétrica no seu segundo dia de vida – revelou Pequena Divindade.
– Não é possível.
– É uma existência tão boa quanto qualquer outra.
– Deixe-me girar novamente, Pequena Divindade, por favor.
A roda da fortuna logo foi girada.
– Ele será um físico renomado, nascido no décimo terceiro planeta colonizado pela humanidade.
– Como ele morrerá?
– Tranquilamente, aos 320 anos de idade, ao cair da cama.
– Não entendo completamente, mas parece-me que foi uma boa vida.
– Para ele, talvez – opinou Pequena Divindade. – Em seus 320 anos de vida, o físico ajudou a humanidade a colonizar outros planetas, destruindo o ecossistema de 44 desses para sustentar a qualidade de vida do restante. Provocou a destruição de uma estrela, e consequentemente de um sistema solar inteiro, enquanto tentava obter energia infinita. Uma boa vida, com muitas esposas, pelo detrimento de trilhões de formas de vida.
– Eu não sabia, Pequena Divindade. Minha presciência está longe de se equiparar a sua. Isso significa que, às vezes, o preço a se pagar pelo equilíbrio maior é alguns receberem uma vida de sofrimento? As crianças que nascem destitutas, deformadas, desprezadas, de alguma forma, previnem um cataclisma maior?
– E se for este o caso, o mundo seria mais justo para você, Aracy?
– Seria, Pequena Divindade. Significaria que todo o sofrimento que passei teve um significado. Que toda dor possui um motivo maior do que nós mesmos.
– Se é nessa terra que você cresce, é nela que deveria acreditar. Mesmo eu sou ignorante à natureza total do universo.
– Quero girar a roda mais uma vez, por favor.
– Faça quantas vezes achar necessário.
– Dessa vez – anunciou a Pequena Divindade, – ele nascerá uma mosca e morrerá por uma infecção intestinal grave, no vigésimo segundo dia.
– Essa é a 49.345.995° vez que ele nasceu um inseto.
– Sim. É difícil visualizar o futuro de outro ser presciente como você, mas achei que, após todo esse tempo, já teria aceitado o destino das espécies.
– Eu gostaria que ele vivesse uma vida satisfatória.
– A vida como Omar não foi boa o suficiente?
– Poderia ter sido melhor. A vida de Omar terminou sem que nada verdadeiramente bom acontecesse. A mulher de seus sonhos migrou por causa da enchente, sem aviso, nunca retornando.
– E quanto à vida como Yu Míng?
– Pode-se dizer o contrário, pois ele levou uma vida muito turbulenta, inadequado para sua tendência tranquila, enquanto Omar, que ansiava por drama e aventura, foi forçado a trabalhar na fazenda de seu pai.
– Mas ele gostava de presenciar o nascimento dos pequenos bezerros.
– Sim… Mas poderia ter sido melhor. Poderia ter sido diferente.
– Posso levar isso um passo adiante.
– De que forma, Pequena Divindade?
A roda da fortuna girou uma última vez, depois transformou-se em pó diante dos olhos de Aracy. A presença da vida que estava passando pela roda da fortuna também se foi, e Aracy compreendeu a conexão dessa vida com a de um pássaro que haveria de nascer seis anos no futuro e morrer cento e oito dias depois. Não seria Omar nem Yu Míng.
– Conversarei com a Grande Divindade, a maior autoridade do universo, da qual tudo se deriva e se esvai. Foi uma dádiva conhecer você, Aracy. Em troca, insisto que não me esqueça.
Com um sopro refrescante, a presença de Pequena Divindade por fim se foi, deixando Aracy sozinha em meio à areia da praia, sem que pudesse ter respondido ou protestado quanto às últimas decisões dela.
“A Grande Divindade não concedeu poderes maiores para Aracy”, disse Siduri. “Mas ela sabia mais do que vários Deuses. Ela sabia o nome de cada pessoa, sabia o pensamento, o desejo, o temor.”
“Ela apareceu para mim em meu sonho, quando eu ainda tinha medo do escuro, revelando tudo que acabei de lhe falar, e falou o meu nome, Siduri, em uma doce melodia, com tanta clareza quanto a minha voz que chega até você.”
“Na próxima noite fui acometida por um pesadelo recorrente: estava sendo perseguida por um monstro sem rosto; eu estava com as pernas letárgicas, como se estivessem submersas em lama. Eu tentava correr com todas as forças, porém o medo me envolvia. Quando Aracy apareceu novamente, abençoada com a graça de um lírio, fiquei tão constrangida em parecer fraca diante daquela bela mulher que lutei contra a criatura pela primeira vez. Usando potes, panos, pedras, e tudo que estava ao alcance da minha mão, o medo deu lugar à coragem infantil. Ela sorriu para mim e eu acordei com as costas ensopadas de suor.”
“Desde essa noite, eu nunca mais tive muito medo do escuro. Eu tenho certeza que mesmo agora ela consegue me ver, e conhece o meu nome, assim como ela conhece o seu.”
– Aracy não é uma deusa protetora. A sua existência serve ao mesmo propósito que o andarilho. Aparecer em noites de lua cheia, demonstrando que há alguém que pensa em você, e o recebe abertamente no coração.
O barco que levara Gilgamesh ao jardim dos deuses estava preparado para partir.
– A história de mais um mortal que alcançou a vida eterna não servirá para me consolar. Preces e meditações são palavras ao vento.
– Você não sabe disso. – Aracy presenteou o semideus com vinho e frutas secas. – Gilgamesh, Rei dos Reis, você retornará para a civilização de Uruk sem a vida eterna, cercado por seus semelhantes, mas sem o seu único igual em natureza e estatura, não mais poderoso, não mais astuto, não mais confiante do que antes. Terminará como começou, tendo perdido tanto pelo caminho. Ainda assim, não estará sozinho. Dou a minha palavra.”